você precisa de um curso que te ensine a “SER MULHER”?

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Há algumas semanas atrás, chegou na minha caixa de entrada, um e-mail que me foi reenviado por minha amada prima /amiga. Nele continha a propaganda de um novo curso sobre “ser mulher”. Me senti grata por ela ter se lembrado de mim, já que ela sabe que há tempos venho buscando a reconexão com o meu feminino sagrado e me reencontrando como bruxa . Li o e-mail e achei a proposta interessante. Supostamente, a ideia do tal curso propunha a comunhão entre a busca do sagrado feminino com o feminismo. Sem demora, me inscrevi para receber de forma gratuita as quatro primeiras aulas.
Logo de assistir a primeira vídeo-aula, fui tomada por um desconforto que brotava das minhas entranhas. Tive uma intuição ruim sobre a intenção desse curso. Soava como que”pegando carona” numa onda que há tempos passou de marolinha para estar em caminho de se transformar em tsunami. Não curti o enfoque e o discurso não me convenceu em nenhum aspecto. Respirei fundo e pus-me a meditar. Não posso julgar essa moça, pensei! Talvez não seja uma pessoa aproveitando-se de um tema tão delicado como a desconexão que nós mulheres temos com o nosso sagrado. Talvez ela fosse apenas ingênua, ou quiçá, foi movida pela avalanche de empreendedorismo virtual onde tudo está apto para virar um curso online. Veja bem, não tenho nada contra empreendedorismo e nem nada contra cursos online, pelo contrário! Mas, logo de meditar muito e por vários dias seguidos, eu entendi o que de fato estava a me incomodar com essa proposta de curso “Sou Mulher” e compartilho aqui minha reflexão: nós mulheres, de fato, precisamos de um curso para que alguém nos ensine como sermos mulheres e/ou estarmos mais conectadas com nossa essência feminina? Ainda não estou segura, mas arriscaria um NÃO como resposta. Ao menos, não neste formato!
Antes de formular e emitir uma opinião, eu terminei de assistir os quatro vídeos do pré-curso que a moça disponibilizou de forma gratuita e, ainda assim, a minha ideia não mudou. Pelo contrário, a sensação de incômodo só crescia a cada vídeo assistido! Em primeiro lugar, o conteúdo pareceu-me superficial por vários motivos, mas não pretendo entrar nesses critérios, pois a intenção aqui não é medir o quão raso ou profundo é o conteúdo proposto. E segundo, fiquei pensando como esses mesmos vídeos poderiam ser úteis disponibilizados num canal do youtube, algo assim, menos pretensioso que em formato de curso. Porque, neste caso, etiquetá-lo como “curso”, pré-supõe, nas entrelinhas, que alguém sente ter superado as brumas que nos separa de estarmos mais conectadas com nossa sacralidade. Alguém detentor da fórmula e, que, por tanto, a vende para que outras possam transpassar essas brumas também. Mas quem é que, vivendo nesse mesmo mundo patriarcal que todas nós vivemos, consegue se sentir em condições de ter superado tudo isso para dar-nos um curso? É certo que existem mulheres que estão muito mais conectadas com seu sagrado que outras, e acho maravilhoso que possamos ter essa troca. Não ensinar, mas ajudar uma amiga a ressignificar seu ciclo menstrual. Não ensinar, mas ajudar uma irmã a não ter vergonha dos odores que exalam de sua vagina. Não ensinar, mas facilitar o auto-empoderamento das mulheres que nos cercam. Veja bem, o que quero dizer é que acredito que todas estamos em condições de acompanhar uma irmã, mas nunca na condição de mestras. Apesar de estarmos desconectadas e que muitas vezes não sabemos que sabemos, se tratam de conhecimentos e sabedorias ancestrais que todas as mulheres levam consigo. É natural. Sim, é muito bem vindo o trabalho de facilitadoras que possam nos ajudar a nos reconectar com esses saberes. Qualquer coisa além disso me soa estranho.
Além dos motivos citados acima, outra coisa que me deixou desconfortável foi observar a virtualização exacerbada e desenfreada de tudo. Eu sou super adepta a aprender via internet. Eu mesma já estudei e fiz muitos cursos por essa via. Mas acredito que, se existe uma coisa que precisa ser “des-virtualizada”, é o contato entre nós mulheres. Essa “academia de empoderamento feminino” virtual não convence! Precisamos de mais vivências em comunhão. Por isso que esse curso me soou tão desconexo com o que procuro viver nessa minha busca!
Não pretendo com esse textão destruir o empreendimento ou mesmo difamar essa moça. Afinal de contas, quem sou eu para definir suas reais intenções quando decidiu vender um curso como este? Eu prefiro acreditar que ela o fez com as melhores das intenções. Mesmo! Mas, acredito que o reencontro com a sacralidade feminina se dá com os pés na terra. Se dá olhando pra Lua. Acontece na solidão de uma meditação olhando pro fogo, dançando em círculos com outras mulheres ou com as deusas na calada da noite. Pode ser que aconteça quando deixemos de desperdiçar nosso sangue sagrado jogando-o no lixo e passemos a vertê-lo na terra em oferenda a Grande Deusa Madre. Quando entendamos que o planeta Terra possui uma energia feminina muita intensa que está disponível á todos que a queiram sentir.
Moça, agora me dirijo diretamente a você! Não estou propondo um boicote ao seu curso “Sou Mulher”. Não o faria nem mesmo se tivesse esse poder! Só acredito que mercantilizar alguns saberes engarrafando-os e rotulando-os não nos ajuda muito. Estou propondo uma inversão de valores: investir uma puta grana (para muitas de nós) para estarmos atrás de uma tela de computador (no caso DESTE curso) não tem muito sentido! Meu caminho nessa estrada já é demasiado virtual e solitário. Me permita te dizer que, a única forma desta proposta ser-me útil e agradável é se você conseguir sair daí da frente, do lugar da professora e venha sentar-se aqui do outro lado com todas nós. Ou, proponho algo que me soa ainda melhor: deixa essa história de curso pra lá, e utilize-se da sua voz e de seu poder de convocação e nos convide a uma interação real e colaborativa, onde cada mulher possa doar e oferecer o que tem de melhor! Sentemos-nos no chão, de preferência em círculo para que possamos ver umas as outras. Vamos nos reunir em fogueiras, cantar, pintar, vamos sentir o cheiro de nossas vísceras. Perdemos-nos numa floresta, joguemos-nos num rio. Meditemos á luz da Lua. Corramos como lobas por aí. Uivemos! Falemos de política e de nossos direitos e conquistas. Nós, mulheres, podemos ser o que quisermos. De bruxas a empreendedoras. De Morganas a Dilmas. Mas, não profanemos o sagrado do nosso feminino! Não duvido que temos muito que aprender contigo e com o time de mulheres que você fez parceria, mas sei que temos muito pra ensiná-las também! Porque até as ideias mais legais, ficam chatas quando “corporatizadas”. Vem, moça do curso! Tira essa roupa (des)pretensiosa “pareço linda-séria-moderna-feminina-convincente” que tá tapando seu corpo e deixa essa postura de professora gesticulante. Muda esse tom de voz contido e deixa sair essa pantera desvairada que mora aí dentro. Sai daí de trás da tela, dá a mão, e vem dançar em círculos com a gente!

O despertar da bruxa

O despertar da Bruxa
Eu nasci bruxa. Durante a minha primeira infância ser bruxa era algo absolutamente natural, tanto que naquela época eu jamais pensei no assunto. Eu me sentia cheia de poderes, e eu os tinha.
Lembro-me perfeitamente de sentir uma conexão muito especial com a natureza, especialmente com as ervas e os cristais. Gostava muito de colher os “matinhos” do quintal lá de casa, e colocá-los numa panelinha com água até obter um chá, tomando-o prazerosamente. Costumava dizer que os cristais eram mágicos e me sentia muito atraída por eles.
Desfrutava muito dessa fase onde tudo tinha um ar deliciosamente místico. Um dia fui flagrada preparando um chá de um “matinho” que eu tinha colhido do quintal e levei uma baita bronca. Fui alertada que não podia sair fazendo chás de qualquer mato que eu visse pela frente, que poderia ser muito perigoso! Foi quase na mesma época que escutei um parente dizer-me com veemência que os cristais eram apenas pedras comuns, sem nenhuma magia por trás. O “perigosíssimo” matinho que eu costumava fazer meus chás era proveniente do pé de boldo lá de casa. Eles estavam tão enganados! Porém, o mais triste é que eu acreditei neles. E a bruxa caiu num profundo e longo sono.
Foi aí que comecei a me desconectar da minha sacralidade. Foi nessa fase que eu comecei preferir os refrigerantes aos chás e considerar a ecologia e afins um papo chato e desinteressante. Me urbanizei ao ponto de deprimir-me quando em algumas ocasiões ficava alguns dias afastada da cidade grande.
Assim permaneci durante muitos e muitos anos. Apesar de ter a magia muito perto como um dos tantos assuntos de meu interesse, nunca me permiti aprofundar-me mais. Até que começaram a ocorrer uma série de sincronicidades. Comecei a sentir e escutar o intenso chamado da Deusa. Em principio era sutil e vago, quase não dei-lhe atenção. Logo, o chamado se transformou  num grito feroz que soava e ecoava dentro de mim. Era insistente e agradável. Certa vez, durante minhas rotineiras caminhadas noturnas, a palavra “bruxa” pipocou na minha cabeça. Senti uma energia especial, confortável. Á partir deste dia, comecei a estudar sobre bruxaria e comecei a relembrar uma série de coisas da minha infância, me reconectei com minha essência mística, bruxa e hoje, a única coisa que lamento foi não ter escutado os chamados da Deusa antes. Eu sei que ela esteve me chamando, mas eu estava sempre demasiado “ocupada” para dar-lhe ouvidos.
Mas afinal de contas, o que é uma bruxa?
A bruxa é a mulher que possui plena consciência da sua sacralidade, utilizando-se de sua aguçada intuição para desvendar os segredos do Universo.  É una na conexão com a natureza e, sobretudo, com a Lua. Ela honra os ciclos do feminino, da menstruação, da gestação. Do nascimento, desenvolvimento e da morte. Ela ama, cria, canta, dança e seduz. A intuição é sua maior arma, e ela a usa sem temor. Imerge no mais profundo da alma de cada ser humano, animal, mineral e astral. Faz uso de todos os elementos que a Mãe Terra dá, do fogo, da água, da terra e do ar. A Bruxa é bem e é mal, pois afinal de contas, somos o que bem quisermos! Uma grande característica das bruxas é a sede por conhecimento, manipular a arte da magia requer estudo, prática e tempo.
As plantinhas voltaram a falar comigo. Os cristais voltaram a exercer esse magnetismo maravilhoso quando eu voltei a vê-los como mágicos. A energia flui melhor no meu corpo. Nunca estive tão conectada com minha essência e propósito.
A bruxa acordou!